3 de fevereiro de 2013

Inquietação

“Mas quem tem coragem de ouvir,
Amanheceu o pensamento que
Vai mudar o mundo com seus
Moinhos de vento”.
(Frejat e Dulce Quental)


Só pra quem tem coragem, ele disse esfregando bem forte as mãos e piscando os olhos denotando uma inquietação nunca antes vista em seu semblante. Sempre calmo, rosto sereno e tranquilo, ninguém jamais duvidou da sua coragem, porém questionavam sua agilidade e insistiam que ele não iria muito longe porque pouco expressava sua opinião quando solicitado. Pouco se doava nos relacionamentos, não por medo. Ele tinha uma espécie de código de conduta: não requerer satisfação quando não parecesse necessário; não fingir amor quando não sentia; não cobiçar quando não lhe apetecia. Não fazia nada por fazer, era o seu lema, preferia deixar seguir. Era sereno.

7 de janeiro de 2013

Da Janela

Ainda ouço o barulho dos fogos de artifício queimando no céu azul da madrugada do dia primeiro. Naquele instante, parei para acompanhar o espetáculo que se formava no céu e tenho certeza de que algumas outras pessoas também pararam em frente à janela para espiar a queima em massa e, sem perceber, pousaram o olhar em um ponto específico e se perderam no tempo e os fogos viraram um cenário de lembranças. Para alguns, a passagem do ano se mostra apenas como uma simbologia ou a simples troca de um número pelo outro, o resto é uma constante: as perspectivas ou a falta delas, as leituras, as histórias, o cronograma, a tarifa de embarque, as roupas brancas e etc. Para outros, a passagem é um começo, é a possibilidade de mudar e renovar as forças: é a expectativa de crescimento e desenvolvimento de novos ideais.

16 de dezembro de 2012

A Saudade é um Rolo que Nunca Acaba

Nem sei por onde começar, minha cara saudade, o horizonte parece tão ofuscado diante da lembrança da tua fotografia. Você não acreditaria se eu te dissesse que ainda guardo o rolo X-T400 da Kodak na gaveta da minha escrivaninha. Um tempo tão bom, às vezes sinto vontade de voltar e melhorar tudo – mudar algumas atitudes para que as minhas lembranças sejam melhores do que essas que guardo aqui em meu peito. Brincar era nosso lema, lembra? Brincávamos de queimado todos os dias como se fosse o maior feriado de setembro e corríamos por entre o campo da Rua do Benévolo SN para incentivar o pega-pega, brincadeira de última hora, antes de corrermos para casa aos gritos da mãe.

14 de novembro de 2012

A Retomada

Dos ensinamentos do Moacyr


Não quero convencê-lo, caro leitor, de que neste espaço não cabe abertura para verbos na primeira pessoa do singular. Seria um equívoco pensar um diálogo sem o uso de tais recursos de linguagem. Ou então este espaço seria unilateral, o que não cabe aqui neste exato momento, muito menos em momentos anteriores a hoje. Mas o que eu quero deixar claro com esta mensagem é que eu sinto falta daqueles momentos fortes do dia-a-dia em que eu me sentia incomodada com tanto sentimento em volta de mim e expunha isso em palavras para exprimir minha tristeza pela distância, pelo desafeto ou afeto de outrem e até pelo desacato; a ternura pelo encontro ou desencontro entre as pessoas, muito comum a todos nós caros indivíduos iludidos ou desiludidos. E também indivíduos que iludem outros e outros por aí vez em quando – fato inegável.

25 de outubro de 2012

A Cartomante e o Homem do Futuro

Durante este tempo, eu ainda estava morando próximo à beira do cais, no Recife Antigo, e ainda mantinha a ideia do bem-viver como algo que purificava o espírito. Conservava a alma com a pureza do ar que, naquele tempo, se podia respirar tranquilo. Era noite, o Recife mantinha a calmaria marítima da noite e o cais, obscurecido, era agitado apenas pela passagem dos trabalhadores e visitantes do lugar. Mas algo chamava a atenção: a mulher de cabelos compridos e batom vermelho reluzente sentada no batente próximo ao galpão de carga e descarga. Parecia muito pensativa.

28 de setembro de 2012

Rua da Coragem

Muita coragem me falta neste instante, mas ela sempre está lá. Levanta, senta. Senta, levanta. As mãos apressadas e trêmulas, as roupas molhadas de tanto trabalho em casa: roupas no varal limpas e aromáticas, comida na panela de dar gosto o cheiro do tempero. E o aroma se espalha pela casa afora até atravessar as cortinas e chegar à vizinhança. E muita coragem me falta, menos a ela que está lá sentada em sua cadeira de balanço. E ela estava lá, fim de tarde, sentada em sua cadeira; cachimbo na mão direita, olhar distante e umas baforadas violentas em direção à janela. Devia estar pensando no tempo em que morou na rua da coragem.

8 de agosto de 2012

O Poder das Coisas #2:

O Poder que a Palavra tem Sobre as Coisas


Ilustração: Alesson Felipe
Acaso tem a madeira o poder de construir a si mesma? Eu me pergunto cheia de intento e de inexplicável ânsia de resposta. Não obtenho uma resposta clara porque sei que a madeira é um caso à parte. Mas a verdade é que eu não sei como o Moacyr consegue dar vida às coisas porque nem eu mesma me criei. Nem faço ideia de como dar vida a outrem, mas o Moacyr sabe.