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23 de setembro de 2013

Ensaio - Amor em Sonho

De repente, várias pessoas se amontoaram em frente à roda gigante: todos queriam ver o fenômeno que, em breve, apareceria no céu. Outra camada, além daquele azul que vemos todos os dias, ia se abrir e, em poucos dias, o amor iria desaparecer por completo da vida dos seres humanos. Foi então que ele me disse: “Durma, tenha um longo sonho e me encontre na rua dos trilhos às 23h00. Quando me encontrar seja doce. Seja doce e me peça para chegar mais perto de você e derrame sobre mim todo sentimento. Me peça pra ficar, não importa o sentido”. 

24 de maio de 2013

O Contato

Haviam se conhecido numa ocasião não muito boa para ambos. Na época, ela tinha acabado de ser demitida e ele tinha acabado de ser transferido para outro país. Ambos tinham receio: ela por não saber o que fazer da vida – após haver se dedicado durante muito tempo ao trabalho como se fosse a sua própria família –, e ele na incerteza da sua adaptação a um mundo que desconhecia. Estavam intranquilos, ambos deixavam laços para trás. Ele muito mais do que ela. 

14 de novembro de 2012

A Retomada

Dos ensinamentos do Moacyr


Não quero convencê-lo, caro leitor, de que neste espaço não cabe abertura para verbos na primeira pessoa do singular. Seria um equívoco pensar um diálogo sem o uso de tais recursos de linguagem. Ou então este espaço seria unilateral, o que não cabe aqui neste exato momento, muito menos em momentos anteriores a hoje. Mas o que eu quero deixar claro com esta mensagem é que eu sinto falta daqueles momentos fortes do dia-a-dia em que eu me sentia incomodada com tanto sentimento em volta de mim e expunha isso em palavras para exprimir minha tristeza pela distância, pelo desafeto ou afeto de outrem e até pelo desacato; a ternura pelo encontro ou desencontro entre as pessoas, muito comum a todos nós caros indivíduos iludidos ou desiludidos. E também indivíduos que iludem outros e outros por aí vez em quando – fato inegável.

14 de junho de 2012

Você é a Minha Cinemateca

De todas as cores, de todos os jeitos: você. Venha e me beije, me faça companhia nos dias frios e tristes: você. Me queime, me faça arder em chamas e afaste o meu medo do escuro: puro. Gosto do seu gosto por coisas novas e reais, gosto do seu cheiro e dos seus ideais e, posso dizer a você, de todos os filmes que amei, você foi e é o mais completo e inesquecível. Lembro assim, meio que soturnamente, do dia em que conheci você, caro pássaro cor de anil, era assim que eu gostava de te chamar, naquela festa de nome longo e complexo, como era mesmo?, A Um Passo da Eternidade, você estava com uma camisa de lã cor de anil com um pássaro gótico desenhado manualmente, parece que estou te vendo agora, aqui perto Curtindo a Vida Adoidado. Agora me pego rindo muito alto, é que estou ouvindo All The Jazz é que você me chamou pra dançar ao som dessa música, lembra? As minhas lembranças não acabam aqui. Eu podia até me perder, mas Depois de Horas eu revelaria detalhes de nós dois.

15 de março de 2012

Acessibilidade

“Eu não tenho muito, quase nada. Só a sombra do meu corpo misturada a galhos secos”. Após pronunciar essas palavras, ele me estendeu a mão. Foi o suficiente.

Antes de o amor chegar, eu estava sentada em frente ao mar, boca seca, pés cansados, olhar perdido e mãos corroídas. Mãos corroídas pelo tempo. Tempo de espera que me machucava a cada vez que eu olhava para a vida e não enxergava a esperança junto à ponta dos seus dedos; a cada vez que eu tentava levantar e não conseguia porque as forças me faltavam e me impediam de ir além. Foi então que, ao longe, eu vi a sua mão e meu rosto se iluminou. Foi quando você veio.

7 de dezembro de 2011

Na Parte que Cabe o "Eu"

Vem e derrama sobre mim o teu olhar como flecha que alcança o alvo preciso em uma pequena fração de segundos, e me reconstrói inteira como se eu fosse instrumento bruto em tuas mãos. E me enche de palavras cheias de hiatos e ditongos constantes em mares de letras que desconheço, por serem novas para mim, e as transforma em frases  reveladoras.

8 de novembro de 2011

Vou Cantar pra Saudade

E eu o vi, Júlio, e foi quando você começou a cantar as cores e o vento e você disse, em voz alta, que era para mim e você desenhou, em vermelho, um acorde no chão da minha rua de pedras azuladas e polidas com o teu canto manso e gentil e você me falou de tudo quanto é canto e você me fez alegre naquela noite encantada que você criou só para mim como num sonho que perdura e invade a alma de canto a canto e faz tudo ao redor brilhar como uma lâmpada fluorescente e como o meu sapato vermelho que eu comprei só para lembrar de você.

20 de outubro de 2011

Por Trás das Cores

Estava chovendo muito, apressou os passos para alcançar logo a calçada da sua casa. Quando entrou, chegou perto da vidraça e viu que a chuva ainda caía forte, olhou abaixo o jardim todo florido e a rua estava quase deserta. "Hoje o dia será monótono" disse em voz alta; tomou um banho e pensou em ir para a cama; o jeito era ficar o resto do dia embaixo das cobertas, mas ao virar-se em direção ao quarto o telefone tocou. Som estridente; ela correu para atender, e pensou: "talvez alguém me dê um motivo para sair de casa". 

2 de março de 2011

Juntando Trapos



   Acabo de ligar o rádio aqui e adivinha? Começou a tocar aquela música que você adora: Belle and Sebastian cantando Funny Litle Frog “I come home late at night and I love your soul” lembrei de você e das nossas conversas de um dia qualquer chuvoso quando você ainda estava brincando de ser descontraído e eu adorava esses momentos porque eu te pegava assim desapercebido de si e a gente ria tanto de tanta coisa besta e era tão bom que eu me perguntava se era você mesmo.
   

26 de fevereiro de 2011

Encontro, sei lá...

 Ele desceu do ônibus todo atordoado. Parece que viu uma assombração. Ela lá no balcão o notou logo. Fazia tempo que não aparecia alguém na cidade, ela já tava até cansada de ficar ali, com aquela cara de enfado, sempre os mesmos bêbabos enxeridos e fedidos...
Ele tava tão atordoado que nem sabia que cidade era aquela, ele só sabia é que queria descer daquele ônibus incômodo, aquela quentura que o desolava e depois ele queria mesmo era ficar distante daquela casa que tanto o fazia mal.
 Ele olhou à sua volta e só viu uma barraca com a tintura desbotada e umas cadeiras velhas.

Tipo Novela Mexicana

Marco Aurélio é um daqueles rapazes que chama a atenção logo de cara, mas não é pela beleza. É porque Marco, como gosta de ser chamado,  faz o tipo rebelde sem causa: chacoalhe o bobo enquanto ele come chocolate e aí serás bem sucedido. Sim, porque chocolate é metafísico né? Então a probabilidade de um bobo correr enquanto estiver comendo é pequena.