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7 de junho de 2016

Paciência

Eu tenho dormido inegavelmente bem na casa de outras pessoas, tenho deixado o corpo relaxar como nunca dantes. Esse fato não aconteceria se eu eu não dormisse há um tempo no sofá de casa. Tenho ouvido muito por aqui há dias, anos: “tenha paciência, minha filha! ”. Que tipo de paciência você sugere que eu tenha quando a única coisa que sinto é o corpo doer, se contorcer, não relaxar no sofá de casa. Casa, casa, casa. Ai, eu estou perdendo a paciência agora. Eu sei disso porque eu estou passando a mão no rosto, esfregando a testa, sentindo o peso dos olhos, a face rígida. Há algo muito errado nessa falácia toda.

17 de maio de 2015

O Predador Moderno

Este texto não é de minha autoria, talvez por isso seja tão interessante e belo!

Autor: G.M. 


Eu conheci um amante alternativo, o tipo mais moderno do que se pode chamar de predador... Este texto é sobre ele.

O predador de hoje não é aquele ogro de antigamente, que batia em mulher ou bebe demais ou mesmo é um machista declarado.

5 de dezembro de 2013

A Linha Tênue que Separa o eu Poético do eu Acadêmico

Estou em branco com as palavras ultimamente. Eu até entendo o fato de estar em branco, estou mais acadêmica do que nunca, e ninguém há de compreender isso e nem eu quero. Afinal, o que os outros têm a ver com a minha febre acadêmica? E os outros devem estar se perguntando que raios é essa história de “acadêmica?” Suspiro lento e com dificuldade para responder a um questionamento que eu mesma coloquei na cabeça dos outros: um acadêmico estuda, se entrega, busca problemas, desenvolve e destrincha cada tópico, procura uma metodologia que mais se adéqua e aplica. É só isso? Possivelmente... Não!

23 de setembro de 2013

Ensaio - Amor em Sonho

De repente, várias pessoas se amontoaram em frente à roda gigante: todos queriam ver o fenômeno que, em breve, apareceria no céu. Outra camada, além daquele azul que vemos todos os dias, ia se abrir e, em poucos dias, o amor iria desaparecer por completo da vida dos seres humanos. Foi então que ele me disse: “Durma, tenha um longo sonho e me encontre na rua dos trilhos às 23h00. Quando me encontrar seja doce. Seja doce e me peça para chegar mais perto de você e derrame sobre mim todo sentimento. Me peça pra ficar, não importa o sentido”. 

6 de agosto de 2013

Samba da Bênção – A Finalização

“A vida não é brincadeira, amigo.
A vida é arte do encontro”. 
Composição: Baden Powell / Vinícius de Moraes




Fotografia da autora
Caro Fontes, começo a escrever este texto ao som do Samba da Bênção na voz da Bebel Gilberto. Afinal, é melhor ser alegre que ser triste, alegria é a melhor coisa que existe. Eu sei, eu sei que na música é melhor ter um pouco de tristeza para escrever um bom samba, mas aqui, meu amigo, a realidade é outra. Hoje eu estou alegre! E a minha alegria tem a ver com finalização. Eu sei que você não deve estar entendendo nada a princípio, mas depois de um tempo você vai acabar compreendendo o que eu estou tentando dizer. Hoje estou falando de fe-cha-men-to. Sim, as disciplinas do primeiro semestre do mestrado estão sendo finalizadas e eu deitando o corpo por completo na cama macia pra voltar a te escrever.

13 de junho de 2013

A Provisoriedade das Coisas

Era difícil para Anita lembrar da sua infância. Ué, mas a infância não é gostosa? Tem balanço, tem bola de gude, tem pega-pega. Tinha tudo isto, só não tinha conforto: não era palatável recordar o passado. Na infância de Anita, seus amigos pareciam sempre mais felizes e mais estáveis; ora, era óbvio! Ela é que não tinha posses; ou melhor, sua família não tinha posses. A mais simples casa parecia um palácio suntuoso frente a sua que era de taipa. Como era triste a infância do querer de Anita; não se deve ter pena!

24 de maio de 2013

O Contato

Haviam se conhecido numa ocasião não muito boa para ambos. Na época, ela tinha acabado de ser demitida e ele tinha acabado de ser transferido para outro país. Ambos tinham receio: ela por não saber o que fazer da vida – após haver se dedicado durante muito tempo ao trabalho como se fosse a sua própria família –, e ele na incerteza da sua adaptação a um mundo que desconhecia. Estavam intranquilos, ambos deixavam laços para trás. Ele muito mais do que ela. 

25 de abril de 2013

A Carta que Atravessa o Tempo

Viajar junto com milhares de objetos só para me ver. Você, às vezes, me surpreendia. Confesso que vez ou outra me pegava tomada por um certo incômodo ante a espera de uma resposta a um questionamento que demorava meses pra chegar até mim e isso, claro, me causa certa ansiedade. Rasuras, cores de canetas variadas, desenhos imperfeitos: assim era você, assim éramos nós. Agora, neste instante, uma saudade imensa invade o meu peito, sinto em cada palavra escrita os seus lábios: ainda tenho as cartas anteriores guardadas na gaveta de cabeceira. Éramos tão felizes, tão sorridentes, tão... Ah, como me toma inteira essa vontade de estar em seus braços. Como me consome a memória a lembrança dos seus traços salientes em cada começo de frase. Suas cartas sempre bem-vindas em momentos inesperados e esperados. As suas histórias, a nossa história. 

4 de março de 2013

Me Rendo

Nunca fui capaz de dizer eu me rendo. Mas ao mesmo tempo penso que, como todos dizem, pronunciar ‘nunca’ é coisa muito forte. Portanto me corrijo e digo que não tinha havido, em minha vida, a oportunidade de me render para um outro ser assim como aconteceu. E olhe que em minha vida já passou o King, a Priscila, o Marrom, o Carrilhão e talvez a memória tenha me falhado. Mas o que é a memória quando não se sabe distinguir entre a doação real e a doação inventada. A retórica diz que não é nada. Ser assaltada por sentimentos de cuidado, preocupação, tensão e temeridade não é coisa que acontece todo dia, ao menos para mim.

3 de fevereiro de 2013

Inquietação

“Mas quem tem coragem de ouvir,
Amanheceu o pensamento que
Vai mudar o mundo com seus
Moinhos de vento”.
(Frejat e Dulce Quental)


Só pra quem tem coragem, ele disse esfregando bem forte as mãos e piscando os olhos denotando uma inquietação nunca antes vista em seu semblante. Sempre calmo, rosto sereno e tranquilo, ninguém jamais duvidou da sua coragem, porém questionavam sua agilidade e insistiam que ele não iria muito longe porque pouco expressava sua opinião quando solicitado. Pouco se doava nos relacionamentos, não por medo. Ele tinha uma espécie de código de conduta: não requerer satisfação quando não parecesse necessário; não fingir amor quando não sentia; não cobiçar quando não lhe apetecia. Não fazia nada por fazer, era o seu lema, preferia deixar seguir. Era sereno.

7 de janeiro de 2013

Da Janela

Ainda ouço o barulho dos fogos de artifício queimando no céu azul da madrugada do dia primeiro. Naquele instante, parei para acompanhar o espetáculo que se formava no céu e tenho certeza de que algumas outras pessoas também pararam em frente à janela para espiar a queima em massa e, sem perceber, pousaram o olhar em um ponto específico e se perderam no tempo e os fogos viraram um cenário de lembranças. Para alguns, a passagem do ano se mostra apenas como uma simbologia ou a simples troca de um número pelo outro, o resto é uma constante: as perspectivas ou a falta delas, as leituras, as histórias, o cronograma, a tarifa de embarque, as roupas brancas e etc. Para outros, a passagem é um começo, é a possibilidade de mudar e renovar as forças: é a expectativa de crescimento e desenvolvimento de novos ideais.

16 de dezembro de 2012

A Saudade é um Rolo que Nunca Acaba

Nem sei por onde começar, minha cara saudade, o horizonte parece tão ofuscado diante da lembrança da tua fotografia. Você não acreditaria se eu te dissesse que ainda guardo o rolo X-T400 da Kodak na gaveta da minha escrivaninha. Um tempo tão bom, às vezes sinto vontade de voltar e melhorar tudo – mudar algumas atitudes para que as minhas lembranças sejam melhores do que essas que guardo aqui em meu peito. Brincar era nosso lema, lembra? Brincávamos de queimado todos os dias como se fosse o maior feriado de setembro e corríamos por entre o campo da Rua do Benévolo SN para incentivar o pega-pega, brincadeira de última hora, antes de corrermos para casa aos gritos da mãe.

8 de agosto de 2012

O Poder das Coisas #2:

O Poder que a Palavra tem Sobre as Coisas


Ilustração: Alesson Felipe
Acaso tem a madeira o poder de construir a si mesma? Eu me pergunto cheia de intento e de inexplicável ânsia de resposta. Não obtenho uma resposta clara porque sei que a madeira é um caso à parte. Mas a verdade é que eu não sei como o Moacyr consegue dar vida às coisas porque nem eu mesma me criei. Nem faço ideia de como dar vida a outrem, mas o Moacyr sabe.

18 de julho de 2012

O Poder das Coisas: #1

o poder que a palavra tem sobre as coisas



Ilustração: Alesson Felipe
Moacyr se senta à beira da estrada e olha seu carro parado em plena manhã de domingo; se tivesse feito uma revisão antes de sair de casa não estaria agora debaixo do Sol a pino. Revolve os bolsos e vê a sua carteira, nem imaginava, há duas horas atrás, que estaria naquela situação.

2 de julho de 2012

Na Areia do Além Mar

Por Jack Borandá e Edilma Maria

Ofereço ao meu amigo Jack Borandá 
por ter me convidado para participar deste belo escrito.


Não me conheces verdadeiramente, mas estou em tuas preces solares/invernia à beira mar. Não me conheces, mas me enfeitas com flores nativas como se eu fosse teu encanto por Iemanjá. Não me conheces, mas eu teu ser sou o teu mundo desconhecido e evoluído que espraias em ondas cinzas de inverno.

14 de junho de 2012

Você é a Minha Cinemateca

De todas as cores, de todos os jeitos: você. Venha e me beije, me faça companhia nos dias frios e tristes: você. Me queime, me faça arder em chamas e afaste o meu medo do escuro: puro. Gosto do seu gosto por coisas novas e reais, gosto do seu cheiro e dos seus ideais e, posso dizer a você, de todos os filmes que amei, você foi e é o mais completo e inesquecível. Lembro assim, meio que soturnamente, do dia em que conheci você, caro pássaro cor de anil, era assim que eu gostava de te chamar, naquela festa de nome longo e complexo, como era mesmo?, A Um Passo da Eternidade, você estava com uma camisa de lã cor de anil com um pássaro gótico desenhado manualmente, parece que estou te vendo agora, aqui perto Curtindo a Vida Adoidado. Agora me pego rindo muito alto, é que estou ouvindo All The Jazz é que você me chamou pra dançar ao som dessa música, lembra? As minhas lembranças não acabam aqui. Eu podia até me perder, mas Depois de Horas eu revelaria detalhes de nós dois.

18 de abril de 2012

Voo por Entre Nuvens

Seus olhos brilhavam como se fossem inundados por água, duas bolhas cheias de segredos incontestes: ela era a mais franzina da Vila Francinette e também a mais intrigante de todas, seu nome era Emília, a moça dos versos rebuscados e enigmáticos, sua fama corria a Vila, mas seu posicionamento arredio afastava a maioria das pessoas do seu convívio. Tudo bem, ela ainda tinha a família e a imaginação. Emília figurava o silêncio, mas seus olhos d'água corriam precisos por todos os lugares e eles falavam mais do que qualquer palavra pronunciada.

27 de fevereiro de 2012

De Gelo

Dê-me as mãos, as minhas estão tão frias, já não sinto os meus dedos, há gelo em todos os lugares desta casa; o canto, o nosso preferido, já não é mais o mesmo desde a sua partida. Lembra quando a gente compartilhava segredos nas noites quentes de verão e trocávamos olhares de cumplicidade e paixão e, às vezes, meus pés roçavam nos seus e eu sentia a sua quentura em minha pele enervada. Sim, eu lembro. Guardo tudo em minha memória, como agora. Como se eu estivesse segurando suas mãos.

15 de fevereiro de 2012

Carnaval Tem Sempre

                 "A La Ursa quer  dinheiro, quem não dá é pirangueiro!"



Ouvi o barulho e, por um instante, fiquei imóvel. Era inevitável, o carnaval havia chegado e eu precisava agir. Fechei o livro e guardei-o na estante, fui até a janela e. E Quando abri um dos lados, me surpreendi: tamanha magia. Como num sonho, me deparei com uma grande multidão que cantava em uníssono: “E, Recife, adormecida, ficava a sonhar ao som da triste melodia”. Longe da tristeza, mãos nas alturas, roupas coloridas, embalo musical: a multidão estava eufórica. Não, não era sonho. Era uma grande elevação; ou melhor, um domínio. Um domínio do corpo e da alma porque o meu eu era força; o meu sangue fervia, meus pés ardiam. E, naquele momento, eu era o frevo; eu tinha o frevo nos pés, o batuque dos tambores nos ombros e nas mãos. Eu era toda Nordeste. Nordeste em cores e, pra onde eu me virava, carregava no peito a alegria de morar numa cidade linda chamada Recife. Recife pintada em sonhos, em histórias: recife português e holandês. De todos os dias, de todos os ritmos e de fantasias: era carnaval. “É pirangueiro! É pirangueiro!”, gritavam as crianças quando um bom vizinho não dava dinheiro. Era o som do carnaval de rua, o melhor de todos. E cada canto tinha sua peculiaridade e tudo se misturava numa grande festa. A festa de rua.

2 de fevereiro de 2012

A Vida Secreta

Não mais, mas isso quer dizer muita coisa. Até o porquê de pronunciá-lo: “Não mais”. Não mais é o tempo que ele passa a escrever enquanto a chuva cai lá fora e um e outro correm para fugir dos pingos; e ele, da sua janela, observa desde o início da formação da nuvem pesada até o instante em que os pingos começam a cair. Não mais; e ele vê, com olhar atento, pessoas se esbarrando e cobrindo a cabeça com um objeto qualquer que está à mão no momento em que a enxurrada de água cai do céu. Outros que abandonam o cigarro quase à metade na poça d'água para não ter um pé de receber respingo no rosto. “Não adianta”, ele pensa. “Vai se molhar de qualquer jeito”, vocifera da sua janela.