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25 de abril de 2013

A Carta que Atravessa o Tempo

Viajar junto com milhares de objetos só para me ver. Você, às vezes, me surpreendia. Confesso que vez ou outra me pegava tomada por um certo incômodo ante a espera de uma resposta a um questionamento que demorava meses pra chegar até mim e isso, claro, me causa certa ansiedade. Rasuras, cores de canetas variadas, desenhos imperfeitos: assim era você, assim éramos nós. Agora, neste instante, uma saudade imensa invade o meu peito, sinto em cada palavra escrita os seus lábios: ainda tenho as cartas anteriores guardadas na gaveta de cabeceira. Éramos tão felizes, tão sorridentes, tão... Ah, como me toma inteira essa vontade de estar em seus braços. Como me consome a memória a lembrança dos seus traços salientes em cada começo de frase. Suas cartas sempre bem-vindas em momentos inesperados e esperados. As suas histórias, a nossa história. 

16 de dezembro de 2012

A Saudade é um Rolo que Nunca Acaba

Nem sei por onde começar, minha cara saudade, o horizonte parece tão ofuscado diante da lembrança da tua fotografia. Você não acreditaria se eu te dissesse que ainda guardo o rolo X-T400 da Kodak na gaveta da minha escrivaninha. Um tempo tão bom, às vezes sinto vontade de voltar e melhorar tudo – mudar algumas atitudes para que as minhas lembranças sejam melhores do que essas que guardo aqui em meu peito. Brincar era nosso lema, lembra? Brincávamos de queimado todos os dias como se fosse o maior feriado de setembro e corríamos por entre o campo da Rua do Benévolo SN para incentivar o pega-pega, brincadeira de última hora, antes de corrermos para casa aos gritos da mãe.

5 de junho de 2012

Chandler, 1929

Ilustração: Alesson Felipe
Minha pequena, em alguns jogos, as palavras são peças de ouro; em um jogo de blefe, por exemplo, o que perdura são os gestos, a estratégia de ação determina o resultado da aposta. Por isso tenha muito cuidado: as palavras pronunciadas têm muito poder e as escritas, também. Ele costumava falar assim, como se estivesse reproduzindo um sermão, toda vez que nos encontrávamos no banco da praça da rua Chandler, nas tardes frias de inverno. Não fosse por esses pequenos encontros, minha cultura se resumiria ao crochê e aos chás na casa das amigas de minha mãe.

18 de abril de 2012

Voo por Entre Nuvens

Seus olhos brilhavam como se fossem inundados por água, duas bolhas cheias de segredos incontestes: ela era a mais franzina da Vila Francinette e também a mais intrigante de todas, seu nome era Emília, a moça dos versos rebuscados e enigmáticos, sua fama corria a Vila, mas seu posicionamento arredio afastava a maioria das pessoas do seu convívio. Tudo bem, ela ainda tinha a família e a imaginação. Emília figurava o silêncio, mas seus olhos d'água corriam precisos por todos os lugares e eles falavam mais do que qualquer palavra pronunciada.

26 de outubro de 2011

As Cortinas

Fechei as cortinas para além da janela da minha imaginação e publiquei, com base em argumentos plausíveis, o amor em bebida doce. E como tudo tem um contraponto, derrubaram minha teoria com o argumento de que na literatura não há suporte para tal abordagem e tudo o que se dizia doce junto com amor foi rejeitado.

20 de outubro de 2011

Por Trás das Cores

Estava chovendo muito, apressou os passos para alcançar logo a calçada da sua casa. Quando entrou, chegou perto da vidraça e viu que a chuva ainda caía forte, olhou abaixo o jardim todo florido e a rua estava quase deserta. "Hoje o dia será monótono" disse em voz alta; tomou um banho e pensou em ir para a cama; o jeito era ficar o resto do dia embaixo das cobertas, mas ao virar-se em direção ao quarto o telefone tocou. Som estridente; ela correu para atender, e pensou: "talvez alguém me dê um motivo para sair de casa". 

13 de outubro de 2011

O Paradoxo da Idade

Ilustração: Edilma
 E o tempo havia corroído as risadas e a calçada da sua mocidade; a mão e o ferrolho do portãozinho velho da casa em que ele morara.

 Quando decidiu abrir o portão, a rua já estava escura, não havia nenhum barulho ao redor. Inclinou-se, abriu o ferrolho e o ruído do ferro ressoou por entre a escuridão e foi nesse ínterim que ele viu a si mesmo, como numa lembrança perturbadora de uma fotografia antiga e pensou que o tempo havia sido covarde em seus atos. Caminhou até a entrada da casa; quando deu por si, havia entrado na sala onde ele estava sentado em sua cadeira de vime, o rosto envelhecido, o olhar amável e a boca ensaiando um meio sorriso que logo foi desfeito ao ver-se a si mesmo e perceber o quanto as coisas haviam mudado entre um espaço e outro da vida. 

29 de agosto de 2011

Sentimentalidades

Gostava de ficar ali, rente à janela, onde os pingos da chuva batiam com uma constância perturbadora e onde o Sol iluminava o rosto de quem se posicionasse no lugar em que ela está agora.
 
Caminhou até ali com passos quase que cronometrados, apoiou-se no parapeito e olhou as mãos e percebeu o quanto elas estavam envelhecidas e concluiu que o tempo havia passado rápido demais e ela ainda nem chegara a viver um terço do que gostaria.

15 de agosto de 2011

A Conclusão

Não, a conclusão não é a morte –  refletiu por alguns instantes. Mas, certamente – pensou ele –, a vida não é um mar de rosas; mais um ponto para o óbvio! A diferença, entre uns e outros, é a quantidade de dinheiro que cada um tem no caixa porque, no fim, todos vão para o mesmo buraco. É certo que uns preferem virar cinzas; outros a gaveta – que é para conservar o corpo.

8 de agosto de 2011

Das coisas que interpretamos

Houve um período da vida em que eu tive medo do escuro porque me massacravam com o lema: "fantasmas existem”. E eu, ainda na inocência, acreditava piamente na história e o sono demorava a chegar e eu começava a tremer sob os lençois de algodão azul, que minha mãe gostava de por na cama.

Hoje eu ainda tenho um pouco de medo do escuro, mas não é de qualquer escuridão. A minha alma é que fica obscura e é um clamor quando acontece e aí tenho que agir rápido; algo está errado. Daí eu fico com medo porque a vida está pesando em mim.

1 de agosto de 2011

A Idade

A primeira impressão não é a que fica. Essa é a minha primeira percepção das coisas. O único problema é que eu não consegui provar por A+B que isso é de fato verdadeiro; mas eu, ao menos, tentei fazê-lo.

Os depoimentos que colhi, para embasar o que aqui exponho, não serviram de aporte por uma simples questão de confiabilidade.